sábado, novembro 9

ENTREVISTA A NUNO OLIVEIRA: O NADADOR-SALVADOR QUE AJUDOU MAYA GABEIRA A REGRESSAR À VIDA


O Sky Naza partiu à descoberta da verdadeira história sobre os acontecimentos do passado dia 28 de Outubro. Durante o salvamento a Maya Gabeira, que caiu ao surfar uma onda gigante na Praia de Norte, a imprensa referiu quase sempre Carlos Burle como o autor das manobras de reanimação ocultando uma peça fundamental no seu regresso à vida, Nuno Oliveira. Hoje, damos-lhe a conhecer melhor o nadador-salvador da Nazaré que prestou os primeiros socorros durante a chegada da surfista brasileira a terra.

Nuno Oliveira durante as manobras de reanimação sob o olhar atento de Carlos Burle.
Sky Naza: O passado dia 28 foi, certamente, um marco importante na tua vida. Mas antes das emoções fortes gostaríamos de saber como foram os momentos que antecederam o acidente. Por volta de que horas te deslocaste à Praia de Norte?

Nuno: No dia 28 estava a chegar à Praia de Norte por volta das 7 da manhã.

Sky Naza: Por mera curiosidade ou admiras a prática da modalidade?

Nuno: Obviamente admiro a modalidade mas num dia normal ia sempre acabar por ir um pouco mais tarde, perdendo assim a ação que se deu bem cedo. Nesse dia estava a integrar a equipa de apoio da Red Bull em terra, ficando na praia para recolher pranchas se necessário ou algo mais que acontecesse.

Sky Naza: Segundo Maya Gabeira esta foi provavelmente a maior onda da sua vida. Como analisas o acidente?

Nuno: Pelo que vi nas filmagens (visto que, encontrando-me na praia, não conseguia ver nada a não ser espumas gigantes) a onda foi brutal e, ao surfar a esquerda, acabou por levá-la a entrar na zona de rebentação mais "inside", onde penso que mais ninguém foi felizmente parar nesse dia. Quem conhece bem o mar da Praia de Norte facilmente distingue dias em que dão ondas enormes, mas alternadamente pela praia e com intervalos que possibilitam o resgate, de dias como aquele, em que o tão aclamado "Canyon" simplesmente não pára de disparar em todas as direções. Onde ela caiu não foi possível aceder a tempo antes de se perder desaparecendo completamente naquele mar e então, tendo tudo no fim corrido bem, considero isto não um acidente mas sim um milagre, pela incrível capacidade de sobrevivência da Maya e por ter aparecido onde foi possível resgatá-la.

Carlos Burle executa o resgate de Maya Gabeira e recebe ajuda de Nuno ao chegar a terra.

Sky Naza: No momento em que Carlos Burle tentava resgata-la já sentias que podias ser útil ou foi tudo acontecendo de forma espontânea?

Nuno: Sentirmo-nos úteis naquelas condições sem qualquer meio para resgate tem de ser algo muito bem ponderado, as correntes e o que resta das ondas vem com uma força incrível e em segundos poderia estar também em risco, o que não ajudaria nada para a situação. Mas sim foi tudo muito espontâneo, estava na praia há poucos minutos, foi a onda da Maya e passado um bom bocado apareceu o colete dela à minha frente e a prancha uns 100 metros mais a norte. Só então depois ela foi vista naquela zona, apareceu e desapareceu várias vezes e quando o Carlos Burle, num grande e fulcral ato de coragem, se atirou à agua, o meu maior medo era que não tivesse pé e começassem a ser levados. Aí ia ser muito complicado. Mas naquele dia estávamos destinados a que corresse tudo bem, vieram duas ondas que os empurraram ao início e depois pude ajudar no reboque para terra.

Sky Naza: Sendo nadador-salvador, explica-nos quais as práticas que utilizaste para trazer Maya de volta à vida.

Nuno: O reboque foi extremamente difícil, ainda que dividido por mim e pelo Burle. O peso parece ser multiplicado num corpo inanimado e a quantidade de água engolida ainda dificulta mais, pelo que mal achei haver condições para avaliar o estado da Maya e trabalhar na reanimação dela decidi parar, sabia que estava no mínimo em paragem ventilatória e nessas condições todos os segundos contam para que seja possível a recuperação e sem lesões. Confirmei a paragem ventilatória e os sinais da falta de oxigénio começavam a ser evidentes, o Carlos Burle iniciou as compressões e de seguida eu administrei ventilação boca-a-boca e continuei as compressões até que tive sinais de recuperação e coloquei-a na posição lateral. Acho que nesta fase foi extremamente importante a concentração para tentar analisar o que necessitava a Maya mas igualmente determinante foi a intenção que ela voltasse e que desse tudo certo com a reanimação. No fundo eu sabia que ela ia voltar e só agi como tal. Depois foi só comunicar muito com ela para controlar a entrada em choque e mantê-la calma, e assegurar que precalços como a onda que levou toda a gente já na areia, como se vê nas reportagens, não comprometesse a recuperação da Maya que já se encontrava mais estável, protegendo-a nunca a largando e mantendo as vias aéreas fora de água.

Sky Naza: Carlos Burle referiu numa reportagem que a sua forma de atuar em manobras de reanimação passa pelas compressões, mas tu seguiste as regras da escola europeia e começaste por dar ventilação. Falaram na altura sobre isso?

Nuno: Durante o acontecimento, quando dei ventilação o Carlos Burle disse-me que "ela já não necessitava disso". Como é obvio não havia um segundo a perder com discussões pois ambos queríamos muito o mesmo, e penso que ele sentiu na minha presença a confiança que o envolvimento emocional causado pela situação lhe poderia fazer falhar. Coordenámo-nos perfeitamente sem nunca termos falado na vida, e o resultado foi muito positivo. Talvez o curso de reanimação que ele falou ter feito suprimisse a ventilação das manobras de reanimação por razões de traumatismos na coluna por exemplo, não sei, mas obviamente vítimas de afogamento que entram em paragem ventilatória necessitam de ser reanimadas sendo lhes administrado oxigénio de qualquer forma, pois não adianta manter a circulação de sangue sem oxigénio. Felizmente com a internet a informação dá voltas ao mundo em instantes e rapidamente aparecem pessoas atentas como o caso da fundação "Lifeguards Without Borders" que aproveitou o caso como exemplo para fazer circular a informação correta para a reanimação de vítimas de afogamento.

Sky Naza: Foste uma peça fundamental no processo de salvamento contribuindo para que a Nazaré não estivesse nas bocas do mundo pela negativa. Como tem sido o feedback por parte das pessoas?

Nuno: O feedback foi absolutamente fantástico por parte das pessoas. Após o que se passou a única coisa que se quer é ver a pessoa bem e cheia de vida e felizmente fui brindado com isso no dia seguinte. Mas muito mais estava para vir, quando muitas pessoas se dirigiram a mim a prestar o seu reconhecimento, muito bom esse carinho aos quais tenho que agradecer visto que foram dias intensos e nada melhor que esse conforto,. São muitas as vezes em que o trabalho de um nadador-salvador não é reconhecido, nem tao pouco agradecido, que também ninguém o faz à espera disso. Ainda mais, aqui com o problema da nossa praia da vila em que todos os dias acidentes são evitados pelo altruismo de surfistas, pescadores ou simples locais que alertam muitas vezes a tempo os turistas que, na inocência do desconhecimento, só se querem aproximar do mar. Isto tudo faz com que o feedback tão forte das pessoas me tenha posto a pensar que preferia não o reconhecimento das pessoas mas que a visibilidade do caso fosse aproveitada para passar informação às pessoas acerca do Suporte Básico de Vida por exemplo, ou que nós e acima de tudo as nossas entidades turísticas começassem a olhar de forma diferente para a sazonalidade da vigilância na nossa praia, que talvez seja insuficiente. A primeira realizou-se, quase como resposta às minhas preces a organização que referi acima editou um vídeo a partilhar a informação correta com base neste caso. A segunda referente à nossa praia permanecerá por resolver...

Sky Naza: A equipa de Maya certamente já te dirigiu algumas palavras de agradecimento. Como tem sido conhecer estas pessoas que estão a ser alvo de reportagens um pouco por todo o mundo?

Nuno: As palavras de agradecimento foram muitas mas acima de tudo o que fica entre as pessoas que não precisa ser dito é o mais importante numa situação destas. Para além de ter sido óptimo contactar com pessoas tão corajosas, determinadas e mediáticas e ao mesmo tempo simples e humildes foi muito bom também ver um pouco das suas vidas naqueles dias. A equipa tem uma dinâmica e boa disposição incríveis e felizmente assim se irá manter por muito mais tempo!


Sky Naza: A Praia de Norte sempre teve ondas gigantes mas, graças a Garrett McNamara, só agora está a ter o devido reconhecimento. Qual a tua opinião sobre aparato que tem sido montado em torno da PN?

Nuno: Sem dúvida que as ondas gigantes sempre cá estiveram, e hão de continuar a estar. No entanto nunca foram surfadas como têm sido estes anos e acima de tudo nunca foi criada uma onda de marketing tão grande, com tanto para ser aproveitado. Quer dizer, da Praia do Norte constantemente têm saído notícias que em minutos dão a volta ao mundo e despertam a maior das admirações, acima de tudo por isto sempre ter estado aqui intacto. Penso que isto é uma bola de neve cujo desenvolver tem passado inicialmente despercebido ao olhar de alguns mais desatentos mas já está muito subtilmente entre nós. As pessoas da terra e de fora já olham de forma diferente para os desportos de ondas e valorizam-nos, não só pelo espetáculo em si como pela envolvência. Afinal onde tem mais prazer um espectador, na confusão de um estádio de futebol ou na tranquilidade da praia? Um dia cheio de emoções fortes como o passado dia 28 foi suficiente para se instalar uma semana de romaria em massa ao Farol, apenas "para ver a onda", e assim tem sido com milhares de pessoas estes últimos anos. Como cada um de nós pode aproveitar isso já cabe a cada um, mas certamente tem algo a aproveitar. Penso que devemos apresentar a estas pessoas a nossa identidade, gastronomia, cultura e tudo o mais e aproveitar as atenções que das ondas foram para o Canhão, e deste podem ir para muitas outras coisas. Quem sabe um dia por exemplo com tanto mediatismo em torno do "Canyon" nos lembremos como este poderia ser dos maiores viveiros naturais de peixe em toda a costa portuguesa, e se decida preservá-lo ao invés de aceitar que se encha o mesmo de redes ilegais que, ao ficar abandonadas pelos fundos causam ainda mais destruição. Muita coisa pode vir, deve vir. Portanto acho que é mesmo de louvar todo o projeto.

Sky Naza: Na tua opinião, achas que a organização deveria criar uma parceria com a Associação de Nadadores Salvadores da Nazaré de modo a garantir uma rápida intervenção em acontecimentos deste tipo?

Nuno: Certamente a associação se envolveria no que pudesse, quer para trabalhar no resgate perto de terra quer para assegurar primeiros socorros e fazer a ligação com o trabalho dos bombeiros em caso de acidentes. No entanto como já referi acho que há dias especiais na Praia do Norte como o dia 28 que a tornam extremamente desafiante em comparação com qualquer outro pico de ondas grandes, que acabam quase sempre com canal, sendo que o resgate nestes dias tem que ser algo muito bem pensado e estou certo que a organização está atenta a isso.


Sky Naza: Uma mensagem para os leitores do blog.

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